A decadência do ser humano


Na medida em que insistimos excessivamente em continuar determinada identidade e certo mundo, realizamos o que Heidegger chama de decadência, vamos perdendo a possibilidade de nos diferenciarmos, de constituirmos outras relações e realidades. Quando insistimos nessa decadência, tornamos possível a constituição de uma atmosfera (Stimmung), de um clima, de um sentimento como o da angústia. Vamos nos angustiando exatamente porque atualizamos, nesse caso, apenas parte do que somos. Sentimos a angústia porque, na decadência, vamos repercutindo e repetindo de algum modo o que somos e o nosso mundo, sem também tornar possíveis reconsiderações de nos mesmos e da nossa realidade.


O que nos aflige e ameaça na angústia, de acordo com Heidegger, não é isto ou aquilo em especial, não é uma simples insatisfação com elementos mais particulares das nossas vidas, como nossos empregos, estudos, relações afetivas. O que nos aflige é algo mais geral, o próprio esquecimento de que também somos "poder-ser", abertura, que também precisamos nos diferenciar, e nos transformar ainda que de maneira menos comum ou recorrente se comparamos com a (outra) determinação que também somos, a de ser o nosso "aí".


A partir da angústia, tudo que temos feito vai perdendo sentido (nosso trabalho, nosso cotidiano etc.). De alguma forma, tudo ou a maior parte do que fazemos vai perdendo seu valor imediato, aquela necessidade que até então nos orientava (e assentava). Esse estado afetivo, o da angústia, provoca certa suspensão em relação à realidade e torna possível a compreensão, mesmo que passageira, de que aquilo que somos, nosso "si-mesmo", bem como o mundo ou a realidade na qual nos mobilizamos, é apenas "efetiva" (Wirk/ichkeit).


Nada, nenhuma atividade ou relação, é autossuficiente. Ao contrário, se constitui de forma contextual, dependendo de todos e de tudo que está em questão em certa relação.


Esta ou aquela relação pode, poderia ou poderá ser (e será) de outra forma. Também podemos ser de outra maneira, sempre podemos ser isto que somos e outras possibilidades. O mundo no qual nos mobilizamos já foi diferente, pode e, na verdade, vai se transformar. Cada um de nós também precisa se reorganizar para atualizarmos ou respondermos de algum modo a parte do que também somos: "poder-ser", abertura a outros.


Autor

Marcelo de Mello Rangel