Emoções e as virtudes morais


Um homem que quer ter uma vida próspera e feliz tem de tornar-se um homem excelente. Somos compostos de uma parte racional e uma parte irracional, e o verdadeiro caráter moral consiste em ter os elementos irracionais sob o domínio dos elementos irracionais. Os elementos irracionais são as emoções: por exemplo, a ira, o medo, o amor, a lascívia, a sede, a fome, a inveja, o ódio, a ambição, o ressentimento, a pena, o júbilo e em geral os eventos e condições mentais que são acompanhados pelo prazer e pela dor. As virtudes morais são hábitos consolidados de caráter que se expressam na resposta emocional correta. O que é a resposta emocional correta? É o que a razão diz que deve ser (EE 1219b26-20a13, 1220b7-20; EN 1102a26-03a10, 1105b19-06a12).


O problema com as emoções é que elas não são facilmente controladas pelo raciocínio; normalmente não faz a menor diferença tentar usar a razão para aplacar um sentimento de ódio, ira ou desejo. As emoções precisam ser controladas de uma outra maneira, a qual é ser treinado por um longo período de tempo, preferencialmente desde muito jovem. A filosofia moral de Aristóteles é notável pela ênfase que coloca na eficiência do treinamento moral e na ineficiência da argumentação moral. "Se argumentos fossem em si mesmos o bastante para tornar os homens bons, eles justamente teriam, como disse Teógnis, ganho muitos grandes prêmios, e tais prêmios teriam sido oferecidos; mas, como as coisas são… eles não são capazes de encorajar muitos homens a tornarem-se cavalheiros." Em vez disso, os homens têm de ser bem treinados e habituados, guiados por leis, costumes e educação da comunidade e pela disciplina da família. É claro que é possível que jovens recebam mau treinamento: "Desse modo, não faz pouca diferença que tenhamos formado hábitos de um tipo ou de outro desde muito jovens; faz uma grandiosa diferença, ou melhor, faz toda diferença"(EE 12202a22-b7; EN 1103a14-04b3, 1179b4-10).


Uma vez que as emoções estão conectadas ao prazer e à dor, as virtudes morais e os vícios, que são disposições de emoções, também estarão ligados com o prazer e com a dor. Nossos caracteres morais são formados pela aplicação judiciosa do prazer e da dor quando somos punidos e recompensados por nosso comportamento na juventude. A maioria dos homens avalia sua própria conduta em termos de prazer e dor, e há certo prazer em fazer o que você sabe que é certo, mesmo quando é contrário a nossas inclinações. Com efeito, se você não gostasse de fazer o que é certo, isso seria um sinal de que você não tem virtude relevante. Por exemplo, se você se refreasse de satisfazer-se livremente com alguma iguaria saborosa, mas o fizesse com dificuldade e ressentimento, isso indicaria que você não tem autocontrole; apenas se você declinasse alegremente a satisfação excessiva é que se poderia dizer que você tem a virtude de autocontrole (EE 1220a34-39, 1221b27-22a5; EN 1099a7-21, 1104b3-05aa16).


Mas parece que há um paradoxo. Diz-se que as virtudes morais são desenvolvidas pelo treinamento para um comportamento apropriado, mas como podemos desenvolvê-las? Para tornarmos-nos corajosos, por exemplo, precisamos fazer coisas corajosas; mas, para fazer coisas corajosas, já que não precisamos ser corajosos? Aristóteles oferece duas soluções: 1) no caso das habilidades técnicas, como caligrafia, nós primeiramente praticamos sob orientação de outra pessoas, o que nos torna capazes de fazer a coisa apropriada sem ainda ter a habilidade, e o mesmo vale para as qualidades morais; 2) as virtudes morais diferem das habilidades técnicas nisto: nelas a bondade do desempenho reside principalmente na expressão do carácter do homem. Se uma ação deve realmente ter bondade que um ato de coragem tem, ela tem de ser feita por um homem cujo caráter é firme e permanentemente corajoso e tem de ser feita por ela mesma, pois ele sabe que é a coisa certa a se fazer. Se isso é o que é uma conduta virtuosa, então o treinamento de juventude para a coragem não requer que o garoto já seja corajoso. Ele está apenas praticando o que vai torná-lo corajoso e somente depois de muito praticar ele se tornará um homem corajoso (EN 1105a17-b18, * EN 1144a11-20).


Texto do Livro Aristóteles - Autor: D. S. Hutchinson; Editora: Ideias e Letras


Tatiana Auler

Psicóloga

CRP 05/56969

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