Entendendo o prazer

Atualizado: Fev 8


Embora Aristóteles não tenha bons olhos para aquilo que ele chama vida de prazer, ele não se opõe ao prazer. Para ter uma opinião acerca de se o prazer é bom ou ruim, é preciso saber o que o prazer realmente é - não é uma questão fácil, e é uma sobre a qual os colegas filósofos de Aristóteles tinham opiniões que variavam amplamente. Platão pensava que o caso paradigmático de prazer é comer e beber; o prazer vem de notar que estamos voltando a nosso estado natural de preenchimento. Segundo essa oposição, o que é bom é o estado de preenchimento, e é uma confusão considerar o prazer como bom, pois ele é apenas um processo que leva a algo bom.


Para Aristóteles, ao contrário, o caso paradigmático de prazer é estar consciente de algo que prende nossa atenção, por exemplo, escutar boa música ou compreender um elegante teorema matemático. Quando nossa consciência está desimpedida e quando aquilo de que estamos conscientes é realmente interessante, o prazer aperfeiçoará a experiência "como um fim que sobrevém, como faz o florescimento da juventude naqueles que estão na mesma flor da idade". A atratividade de uma atividade prazerosa não é algo extra, para além de a atividade ser um bom exemplar de seu gênero; o prazer é como a beleza de uma pessoa jovem na primavera da vida. E o mesmo vale para outras atividades que podem não envolver consciência - a posição geral de Aristóteles é a de que o prazer está envolvido em qualquer atividade não-frustrada que mobiliza nossas capacidades naturais (EN1174b14-75a3).


Segundo a análise de Aristóteles, um prazer ser bom depende inteiramente de a atividade associada ser boa. Ele em geral sustenta que o conhecimento e outros tipos de consciência são bons, embora coloque o conhecimento intelectual acima de percepção sensível, e ver e ouvir acima de degustar e tocar (veja abaixo, pp. 282-284). Diferentes espécies têm diferentes prazeres, assim como os têm diferentes homens. Como decidimos que prazeres são apropriados para nós? Devemos considerar como padrão o homem que está em uma condição normal, o homem que tem as virtudes da condição humana. Se outros gostam de coisas diferentes, isso é porque suas naturezas foram corrompidas, e não se pode dizer que aquilo de que eles gostam são prazeres apropriados para os homens. Já que uma vida próspera e feliz é uma vida de atividades bem executadas, ela será também uma vida cheia de prazeres, e é certo, como diz Aristóteles, incluir o prazer em nosso ideal de vida feliz. Mas os prazeres da vida ideal provirão diretamente de suas atividades sérias e dignas, não dos frívolos divertimentos da assim chamada vida de prazer (* EN 1152b25-33; en 1175b24-76a29).


Aristóteles rejeita a análise platônica do prazer por diversas razões. Na opinião de Platão, o prazer pressupõe uma privação anterior, mas Aristóteles indica que alguns prazeres, proeminentemente os prazeres da consciência mental e perceptiva, não a pressupõem. Na opinião de Platão, uma vez que o prazer é um processo de restabelecimento, ele tem de estar incompleto e inacabado até que atinja sua meta; mas isso não é verdadeiro sobre o prazer, Aristóteles diz, pois sempre que estamos tendo prazer, também podemos dizer que tivemos prazer. Na opinião de Platão, uma vez que o prazer é um processo direcionado a uma meta, ele tem de ter uma velocidade; mas não podemos ter prazer rápida ou lentamente, diz Aristóteles. Platão estava errado em fundar sua compreensão do prazer nos prazeres corporais, embora isso fosse compreensível, diz Aristóteles, porque eles são os mais intensos dos prazeres - alguns homens sem refinamento na verdade não conhecem nenhum outro tipo. A definição de Platão do prazer era "processo perceptível a uma condição natural" mas a opção de Aristóteles para a definição é "atividade desimpedida de uma condição natural" (* EN 1152b33-53a17, 1154a22-b20; EN 1173a29-b20).


Fora o argumento de Platão, havia outros que davam a entender que o prazer não era bom, e Aristóteles rejeita a todos. "O prazer é ruim porque perversos caçadores de prazer o buscam". Resposta: o que é ruim são apenas os prazeres errados ou excesso de prazer corporal, não o próprio prazer. "O prazer é ruim porque muitos prazeres não são saudáveis". Resposta: todas as boas coisas são ruins num ou noutro respeito, pelo menos em alguma circunstância. Não há argumentos válidos para mostrar que o prazer é em geral uma coisa ruim (* EN 1153a17-35; EN 1173b20-31, 1174a13-b14).


Pelo contrário, o prazer tem de ser geralmente uma coisa boa, pois seu oposto, a dor, é ruim. Ademais, toda criatura viva, seja racional, seja irracional, visa o prazer e escolhe tê-lo, e, a menos que a natureza esteja absolutamente enganada, isso tem de indicar que o prazer é bom. Além disso, algo é particularmente digno de ser escolhido e bom se é acolhido por si mesmo, não por alguma outra coisa, e isso é verdadeiro acerca do prazer -temos prazer pelo prazer, não por um outro propósito. O prazer é realmente uma coisa boa, na opinião de Aristóteles, quando ele surge das atividades apropriadas dos homens em condição moral apropriada, e nosso bem supremo, uma vida vivida de forma próspera, incluirá o prazer como uma de suas bênçãos (EN 1153b1-5421; EN 1172b9-73a13, 1175a10-21).


Texto do Livro Aristóteles - Autor: D. S. Hutchinson; Editora: Ideias e Letras


Tatiana Auler

Psicóloga

CRP 05/56969


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